sábado, 28 de maio de 2011
Poesias de Marcos em Vídeo
domingo, 15 de maio de 2011
UM FLASH DE LUZ SOBRE A LEGALIDADE QUE VEM DO ALTO, por Marcos Cavalcanti
MAI14
Postado por Wallace Maxsuel em Santa Cruz | 1 comentário

O caso do fotógrafo Leonardo Luciano, proibido de fotografar no Santuário de Santa Rita de Cássia pela “administração do complexo turístico”, sob o argumento de que ninguém está autorizado a comercializar no local, sem permissão, a não ser que para tanto pague um percentual à igreja, revela-nos muito mais do que a primeira vista pode parecer. Tentemos compreender o “não dito” sob uma ótica racional, e tanto quanto possível, de maneira imparcial e desapaixonada, face a tudo o que envolve tão relevante questão.
Em primeiro lugar, como é de todos sabido, o Alto de Santa Rita foi construído com o dinheiro público, portanto, é resultado do bolso de todos nós, contribuintes daqui e de alhures, sejam protestantes, católicos, ateus, budistas, umbandistas, etc . Eis aí o primeiro problema legal: num estado verdadeiramente laico, em nenhuma hipótese o dinheiro público seria liberado para beneficiar quaisquer que fosse a instituição religiosa. Muito bem! Explicitado isto, o principal argumento em contrário é o de que o Complexo foi pensado para favorecer o desenvolvimento da economia local e regional através do turismo (na modalidade religioso), que em certa medida seria justificável se os recursos públicos tivessem sido acessórios, ou seja, apenas para viabilizar a pavimentação do acesso, a energia elétrica, as questões sanitárias e ambientais que envolvem a obra, ficando a escultura, a capela e outros espaços de rito, por conta da instituição religiosa. Não é o caso.
Principalmente durante a Idade Média, a igreja católica construiu a sua riqueza e o seu poder através da ligação intrínseca que mantinha com a nobreza (detentora do poder político e econômico), o que lhe permitiu um papel relevante no chamado mecenato cultural, financiando obras de arte e monumentos que continuam sendo por sua beleza, por sua perfeição ou grandiosidade, razão de atração turística em vários lugares do mundo. De volta a nossa contemporaneidade, a imagem que ganhou forma através das mãos do artista Alexandre Azedo, foi inteiramente patrocinada por entes públicos (União, Estado e Município). Eis os seus verdadeiros mecenas. Nenhum tostão da igreja foi gasto, mas é certo também que a sua forte influência foi importante na luta pela liberação dos recursos. É verdade ainda que a imagem que se explora ou que é explorada faz parte da simbologia ou do patrimônio católico, pois foi esta instituição que a legitimou, consagrando-a ao longo do tempo junto ao seu rebanho de fiéis.
Com estas observações chegamos a questão primordial, da qual decorre não só o caso do fotógrafo, mas tudo que do ponto de vista administrativo, é pertinente e útil que saibamos. Considerado isto, vamos às indagações que me parecem justas e necessárias: Quem ou quais instituições efetivamente administram o “Complexo Turístico de Santa Rita? Há uma concessão legal? O documento legitimador da administração do Complexo foi aprovado pela Câmara Municipal? O que estabelece esta concessão quanto às questões de exploração comercial, manutenção do complexo, duração da concessão e prestação de contas? Ou seja, quais os direitos e deveres do concessionário? Ou mais simplesmente, o que pode e o que não pode ser feito do ponto de vista legal, no Alto de Santa Rita?
É imperativo que a Igreja e a Prefeitura esclareçam o mais rápido possível estas questões, sob pena de que fatos como o do fotógrafo possam vir a se repetir, causando constrangimentos desnecessários aos nossos conterrâneos, aos visitantes, ou mesmo às instituições envolvidas, que são falíveis como todos nós. O Alto é patrimônio de todos e a todos deve bem servir.
(Se eu pudesse, iria à noite contemplar lá do alto, a minha cidade cá embaixo, toda iluminada; se me fosse permitido, tomaria uma taça de vinho ouvindo uma sonata de Johann Sebastian Bach ou mesmo um cântico gregoriano; mas como isso ainda não é possível, pacientemente espero!)
Marcos Cavalcanti
sexta-feira, 6 de maio de 2011
DO ALTO AO AUTO, ARAUTO DE ALGUMA ESPERANÇA

DO ALTO AO AUTO, ARAUTO DE ALGUMA ESPERANÇA
Salto de blog em blog e não encontro nenhuma resposta, nenhuma explicação concreta para a não realização do Auto de Santa Rita de Cássia, cujas duas edições, custando cada uma, mais de R$ 200 mil reais, eu e muitas outras pessoas fomos assistir no pátio da matriz.
No blog da paróquia, a prioridade das matérias recaem sobre a recente beatificação do Papa João Paulo II. A postagem do dia 30 de abril apresenta a programação religiosa e cultural da festa da Padroeira, mas de apresentação teatral, encontramos apenas O Mágico de Oz e nenhum comentário sobre as razões da ausência do auto de Santa Rita na programação deste ano de 2011.
No Blog da Voz Amiga, do secretário de cultura Iranilson Silva, nenhuma nota a respeito, assim como no site da Prefeitura Municipal, na parte reservada à pasta de Cultura, o silêncio sobre o tema permanece. Como silenciosa está também a formação do Conselho Municipal de Cultura, há tantos anos reivindicada e que vem sendo de data em data, protelada.
Uma visitinha ao site da Fundação José Augusto e descubro que este se encontra parado no tempo e no espaço, sem qualquer atualização desde a posse da atual gestão, quanto mais um menção ao Auto de Santa Rita. Será o impossível?
Nos demais blogs, especulações de uns, desânimo de outros, e a responsabilidade quase posta no colo das novas gestoras da Casa de Cultura, o que seria obviamente uma grade injustiça para com as duas. Ora, se o governo do estado, através da FJA não tem condições financeiras de bancar o auto, por que razão não diz claramente? Por que não apresentou uma proposta mais viável? A mim, sempre me pareceu um absurdo o valor gasto com o auto. Note-se que as duas edições, que ao todo duraram 4 dias de apresentações, consumiram a soma de mais de 4oo mil reais, ou seja, quase 10% do que custou todo o santuário, chamado também de alto, só que com L. Será que algum blogueiro de nossa cidade ou da região tem acesso à nova gestora da cultura estadual, a senhora Izaura Rosado, para corajosamente indagar-lhe uma resposta oficial sobre o caso? Quais foram as ações conjuntas, refiro-me à Prefeitura Municipal (Secretaria de Turismo e de Cultura) e à Paróquia local para viabilizar a terceira edição do auto, já que nos anos anteriores a propaganda alardeava com pompas e circunstâncias que o auto já estava consolidado como uma tradição de nossa festa maior? A tradição sofrerá solução de continuidade, por quê? Inaugurar-se-á uma nova tradição de realização do auto em outra data? Quem pode responder esta questão? A acessória de imprensa da prefeitura, tão ágil em explicar a destruição de uma ou duas algarobas, das várias já destruídas em nossa cidade, teria a resposta?
Então, para além dos que são religiosos, sejamos um pouco racionais. O Auto de Santa Rita embeleza a programação da festa? Não só embeleza, como emociona, como instrui, como atrai o turismo, forma atores e público espectador. Portanto, se justifica, claro! Mas a que custo? Novos R$ 200 mil reais? E onde é que está todo o figurino comprado e utilizado nos dois autos anteriores? Tem sempre que renovar o guarda-roupa de um ano para o outro? O texto não é o mesmo e já não estão todas as vozes dos personagens, devidamente gravadas? E os adereços utilizados nos cenários, desapareceram? O palco e o sistema de som têm que custar tão caro? O grupo de atores, a maioria deles de nossa terra, já não tem um considerável know-how acumulado? Tenho certeza de que sim. Toda a parte musical também já não está composta? E se não estivesse, estou certo de que o maestro Camilo a comporia por muito menos do que foi gasto nas outras edições. E na urgência, como alternativa, ainda teríamos a utilização da música sacra de domínio público, sem falar na Banda de Música ou no coral de Santa Rita para acompanhamento e apoteose final do espetáculo.
Por tudo isso, não entendo a interrupção; não encontro as respostas oficiais, e penso, como acima expus, que não seria uma causa impossível fazê-lo de uma outra maneira, de forma mais econômica e inteligente, contando sobretudo com a solidariedade do povo santacruzense, tão fervoroso em sua fé.
Santa Cruz-RN, 03-05-2011.
Marcos Cavalcanti
FONTE: http://wsantacruz.com.br/2011/05/05/de-marcos-cavalcanti-do-alto-ao-auto-arauto-de-alguma-esperanca/
quarta-feira, 27 de abril de 2011
MANIFESTO DA ASPE CONTRA O ANONIMATO
MANIFESTO DA ASPE CONTRA O ANONIMATO
Caros Santacruzenses, amantes da cultura e da nossa literatura,
A ASPE – Associação Santacruzense de Poetas e Escritores tem 10 anos de existência em nossa cidade; é uma instituição séria e conquistou o respeito da população com muito esforço, trabalho e organização coletiva ao longo destes anos; seus fundadores e membros, que este ato subscrevem, têm nome, sobrenome, residência fixa e acima de tudo comungam com os princípios do respeito e da ética que devem nortear as ações humanas. Um de nossos objetivos sempre foi o de tirar do ANONIMATO os poetas e escritores que pouco ou nunca tiveram visibilidade ou divulgação de seus trabalhos literários, e é o que tem conseguido realizar com êxito por meio de atos lícitos e transparentes, como através da publicação das antologias Santa Prosa em Cruz e Verso (2004) e Cantos e Contos do Trairi (2008), bem como através do programa Verso e Cia, que vai ao ar, uma vez por semana, pela Rádio Comunitária FM Santa Rita, há mais de um ano. Também divulgamos a nossa poesia através do Blog da ASPE que tem como idealizador o poeta Gilberto Cardoso. Ademais, a ASPE sempre esteve presente nos eventos públicos de nossa cidade, declamando, distribuindo poemas, mostrando o nosso rosto, o nosso corpo e a nossa voz.
Os que fazem a APOESC, nossa co-irmã, têm seguido com mérito o mesmo rumo, a exemplo do que podemos verificar também no programa APOESC em Canto e Verso, veiculado pela já mencionada rádio comunitária e que tem como divulgadores os poetas Hélio Crisanto e Gilberto Cardoso. Outras instituições de nossa cidade têm feito a mesma coisa através de eventos, exposições e saraus, a título de exemplo, citamos: o IFRN, a Casa da Cultura, a Prefeitura Municipal de Santa Cruz através das Secretarias de Educação e de Cultura, o Grupo Teatral Arte Viva, as escolas públicas e particulares de nossa cidade. A todos estes apoiadores rendemos homenagens e agradecimentos pela divulgação que fazem dos nossos escritores.
Deixamos claro neste manifesto que somos todos, sem exceção, contrários ao anonimato ou a pessoas que travestidas de pseudônimos se valem desse subterfúgio mesquinho para propagar o que quer que seja, e assim procedemos em sintonia com o que preconiza a nossa Constituição Federal em seu art. 5º, inciso IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; que não autorizamos nem necessitamos que anônimos falem em nosso nome sob qualquer pretexto; que a nossa história limpa e honesta não se mistura à covardia, à maledicência, à perfídia nem à maldade; que sempre respeitamos o nosso povo e as nossas instituições; e finalmente, que de bom grado agradecemos a todos que sem disfarce queiram divulgar a nossa literatura.
Feliz a frase de nosso membro-fundador Nailson Costa, da qual nos valemos para manifestar o nosso repúdio ao anonimato e a cultura do anonimato que por ele se propaga. Sentencia Nailson: “O anonimato é irmão gêmeo da falta de caráter”. No que acrescentamos: O anonimato é a máscara indecente que oculta a face espúria de um covarde.
Viva a literatura santacruzense!
Viva a liberdade de expressão com responsabilidade!
Viva a verdade que por essência é inimiga do disfarce, da dissimulação!
Santa Cruz-RN, Abril de 2011
Nome dos poetas, artistas, agentes culturais e afins que assinaram o manifesto contra o anonimato, até o momento desta publicação, já que o documento original encontra-se aberto a novas adesões.
01- Marcos Antônio Bezerra Cavalcanti
02- José Nailson de M. Costa
03- Sebastião César P. Ferreira
04- Maria de Fátima Farias Cavalcanti
05- Arnaldo Pereira da Silva
06- Antônio de Pádua Borges
07- Maria Betânia Borges
08- José Antônio de Melo
09- José Alves dos Santos
10- Débora Raquiel da Silva Lopes
11- Carla André a. Maia
12- Diogo Pereira da Silva
13- Camilo Henrique D. Soares
14- José Jales de Araújo Costa
15- José Edgar dos Santos
16- Josefa Crispim da Silva
17- Rita de Cássia Luna e Silva
18- Hélio Gomes Crisanto
19- Hugo Tavares Dutra
20- Teixeirinha Alves da Silva
21- Sebastião Rocha Filho
22- Willard Monteiro
23- José Edmilson da Rocha
24- Ranieri Silvio Fernandes de Assis
25- José Adriano Bezerra de Souza
26- Antônio Davino M. Neto
27- Idalino Suplici da Silva Azevedo
28- Lucimar Franco
29- Maria Rosimar da Silva
30- Vanderlei Alves de Queiroz
31- Marconde Pinheiro de Araújo
32- Gilberto Cardoso dos Santos
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Sobre a ASPE
ASPE significa Associação Santacruzense de Poetas e Escritores. É uma entidade que foi criada em 2000 e que tem por objetivo congregar e auxiliar a todos (santacruzenses ou não) que produzem ou apreciam a cultura, de cunho popular ou erudito. A ASPE tem dado expressividade à cultura potiguar através da publicação de várias antologias e da realização de saraus poéticos. Em escolas e praças, em eventos festivos da região e a cada final de mês na Casa da Cultura de Santa Cruz, a ASPE tem cumprido um importantíssimo papel, tirando pessoas de talento do anonimato e incentivando a produção cultural.
Para ser membro da ASPE não é necessário ser poeta. Ser amante e incentivador da arte é o suficiente.
Veja novidades audiovisuais em GCARSANTOS
Poemas declamados pelo brilhante poeta Marcos Cavalcanti, membro-fundador da ASPE, extraídos do livro de sua autoria Viagens ao Além-túmulo.
Ouçam mais este:
CLIQUE em Viagens ao Além-Túmulo e ouça belas declamações ou, se preferir, copie o link http://gcarsantos.podomatic.com/player/web/2009-09-11T18_11_47-07_00
DESAPARECIMENTO
Poema de Zé Laurentino declamado por Gilberto Cardoso.
Nos sábados à noite, das 8 às 9 h, a FM COMUNITÁRIA SANTA RITA (um bem da comunidade santacruzense) transmite o Programa POESIA e CIA. Excelente!
LINK DO PROGRAMA DA ASPE (IRRADIADO EM 29.08.09) ONLINE E NA ÍNTEGRA NO LINK http://gcarsantos.podOmatic.com/entry/2009-08-31T15_55_36-07_00 (Copie o link e cole-o na barra de endereços.
PARA OUVIR NA ÍNTEGRA O PROGRAMA POESIA E CIA, acesse o link abaixo:
http://www.gigasize.com/get.php?d=mdx8of4lvof
http://www.gigasize.com/get.php/3198671325/VERSO_E_COMPANHIA_-__15_08_09_.mp3
P downloadear o programa Poesia e Companhia irradiado em 29.08.2009, tente pelo link
http://www.gigasize.com/get.php?d=fnrp73fhdwf
6 comentários:
Josue Dax disse...
Gracias por visitarnos amigo Gilberto, ahora que acabo de rebisar tu blog detenidamente, permiteme felicitarte por lo interesante que es, por el apoyo a la poesia y por la buen labor de la asociacion ASPE, TE SEGUIRE DESDE AHORA, y gracias por su comentario, un fuerte abrazo.
ate. Josue Dax
2 de Agosto de 2009 15:43
poesia potiguar disse...
Oi, Gilberto!
que iniciativa maravilhosa essa de criar o blog da ASP!! Parabéns! Preciso voltar aqui com mais tempo pra ouvir as poesias!
Prometo fazê-lo em breve!
em tempo: assim que eu tomar vergonha e gravar alguma coisa no site "goear", te aviso, ok? rs!
beijão pra você!
3 de Agosto de 2009 09:23
lele disse...
Caramba! Parabéns professor Gilberto, isso é fruto de um trabalho sério e com amor.
16 de Agosto de 2009 06:40
BLOG DA ASPE disse...
Valeu, Lele! Obg!
16 de Agosto de 2009 07:27
João disse...
Parabéns! Bela entrevista!
16 de Agosto de 2009 09:34
Entrevista com Débora Lopes

GILBERTO: Olá, poetisa Débora! Comece falando-nos sobre suas origens, formação e pessoa.
DÉBORA LOPES:
Toda minha infância foi vivida em São José do Campestre, terra de meu pai. Em 1993, quando eu tinha 11 anos de idade, meu pai fora transferido para a secretaria de tributação desta cidade, após desastroso fechamento do Banco do BANDERN e aqui fixamos residência.
Sou Licenciada em Geografia, formanda de Letras pela UFRN- Campus de Currais Novos. Atuo na área e sinto verdadeira paixão pela educação.
Não sou adepta da Teoria do medalhão, nunca atingi a plenitude do vazio interior... não leio compêndios de retórica; tenho espevitamentos subjetivos;pouco tenho me assentado à mesa com os que se dizem quilates de luz.Tenho acatado a tese de Vauvenargues: ''Não há pessoas mais azedas que as doces por interesse’’. Tenho tido contato com almas cínicas e puras sem assim medir o grau da desconfiança.Tenho paixões repentinas, não tenho sonhos surreais, sou um ser sentinte na vida.
GILBERTO: Quando foi despertado seu amor pela poesia e que contribuição a leitura teve na sua vida?
DÉBORA LOPES:
A poesia para mim sempre esteve em movimento, embora que precocemente esvaziada de significados. Meu amor pela poesia surge na infância, costumava memorizar os poemas da Arca de Noé, de Vinicius de Morais, adorava rimas, bastante contrastante com o hoje, escrevo versos livres, a liberdade me fascina.
A leitura, especificamente a prosa era bem menos escorregadia para mim, era um dos refúgios prediletos em que eu me abrigava para não fazer o dever de casa. Do ponto de vista institucional a leitura me fez um mal danado, posto que elegi literatura como componente curricular privilegiado.Meu relacionamento com a leitura é tão mais íntimo e profundo que empobrece todos os outros.
GILBERTO: A que tipos de poesia e obras literárias você mais aprecia hoje?
DÉBORA LOPES:
Nem mesmo meus gostos seguem rotinas ou organizações previsíveis. Eu leio tudo que me agrade. Em se tratando de poesia, não há quem mereça lugar menos privilegiado. Agora, que no meio do caminho não há como desconsiderar a influência dos que causam perplexidade, e, não nego a ninguém que Drummond se expandiu tanto dentro de mim, que não restou lugar para nenhum outro.
GILBERTO: Que expectativas você tem em relação à ASPE?
DÉBORA LOPES:
Diria que a ASPE é sem dúvida nosso maior patrimônio cultural. Ela une e fortalece os escritores locais, sendo porta-voz de nossa paisagem interior. É um espaço de livre criação literária focalizando e expansão do público leitor, na fraternidade, na liberdade, na pluralidade e na justiça.
GILBERTO: Cerca de quantas poesias já escreveu? Quando, realmente, começou a se sentir inspirada e a escrever seus primeiros poemas? Lembra do primeiro deles?
DÉBORA LOPES:
Na verdade nunca contabilizei meus poemas. Venho escrevendo desde a adolescência, meu primeiro verso se deu, associado ao manancial de saudade de minha tia materna, que havia deixado este mundo para uma esfera distante da nossa. Essa figura sobremaneira representou em minha poética o interdiscurso, e me permitiu traçar a fronteira do horizonte literário.
GILBERTO: Para você, o que significa ser poeta?
DÉBORA LOPES
Afinando o termo para propósito de análise, Manoel de Barros está coberto de razão ao falar de seu papel de poeta:
(...)”Li em Chestov que a partir de Dostoievsky os escritores começam a luta por destruir a realidade. Agora a nossa realidade se desmorona. Despencam-se deuses,valores,paredes...Estamos entre ruínas. A nós ,poetas destes tempos,cabe falar dos morcegos que voam por dentro dessas ruínas.Dos restos humanos fazendo discursos sozinhos nas ruas. A nós cabe falar do lixo sobrado e dos rios podres que correm por dentro de nós e das casas. Aos poetas do futuro caberá a reconstrução- se houver reconstrução. Porém a nós, a nós, sem dúvida-resta falar dos fragmentos,do homem fragmentado que, perdendo suas crenças, perdeu sua unidade interior. É dever dos poetas de hoje falar de tudo que sobrou das ruínas- e está cego. Cego e torto e nutrido de cinzas(...) .
Ser poeta, resumidamente é emprestar óculos ao tempo, é ver com voracidade o invisível, é um rumor infinito de vozes que secundarizam nossa própria existência. É isso mesmo, alguma espécie de mediunidade.
GILBERTO: O que tem a nos dizer sobre a arte poética nos dias atuais e especificamente em Santa Cruz e na região do Trairi?
DÉBORA LOPES:
A arte poética em nosso município vem se dinamizando; ao passo que alguns poetas saem do anonimato, os grandes nomes refinam seu dizer com maestria.
O material literário que circula a nossa volta é de extrema qualidade, uma realidade que nos alivia da carga das rotinas, dos compromissos... esse fenômeno de sensibilidade aflorada nos garante uma invernada de poemas futuros.
GILBERTO: Cite um ou mais poemas que considera os melhores ou que falam profundamente à sua sensibilidade.
DÉBORA LOPES:
O Elefante (Carlos Drummond de Andrade)
Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos moveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa as formas naturais.
Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.
Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.
GILBERTO: Como escritora, quais seus temas preferidos? O que mais lhe desperta a sensibilidade?
DÉBORA LOPES:
Meus temas são geralmente de cunho social, meus temas prediletos vão surgindo à medida que tenho meus sentidos aguçados, e isso pode acontecer sem qualquer motivo aparente. Ultimamente tenho feito poemas sobre a temática negra. É sempre bom lançar o olhar para o que há de nobre na vida, precisamos amadurecer a ótica aos temas que evoquem mais humanismo e paz num mundo que carece de perdão pelo que há de ruim.
GILBERTO: Informe-nos sobre seu blog e outros espaços virtuais que porventura tenha.
DÉBORA LOPES:
http://vinhopoesia.blogspot.com/
GILBERTO: Finalmente, faça suas considerações finais e brinde-nos com um ou mais de seus poemas.
DÉBORA LOPES:
Poema de Luto
Dos portões de Etiópia menos um,
De Nigéria menos dois, em
Somália menos três bocas para alimentar.
Mama África é assim, nem rir, nem chora, somente espia.
Quando a lança crioula da morte se aproxima
Tocando o apito sagrado
Mama África se esconde sob um véu negro de luto,
Tambores do fim do mundo, o atabaque amigo já não canta.
A lua sem preconceitos dilatada e branca assiste o episódio antigo, a mesma história assassina.
E antes que os urubus se apressem sob o céu descortinado de esperança, a mãe prepara o menino juntando seus trapos.
A terra engole também o que sobeja?
Eu sem vc, começo do fim
Madrugada inteira neblinando versos
E chove minha alma, carregada de sonhos.
Eu tenho um amor errante, anda descalço, desajeitado,
É bem pobrezinho, Vez por outra ele escorrega
Tão desastrado bichinho...
Amor que cai em bueiros... ESGOTADO!
É amor que não senta à mesa
É amor atrevidinho
É amor que faz careta
É amor pigarreado
E por ser ele assim
Todo cinza, todo torto
Todo errado,
Comunga comigo
Companhia minha
Nele me comprazo.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
A TRISTE PARTIDA DOS FRANCESES


Homenagem feita a Joelle Legrand e Titi (François) simpático casal francês que esteve entre nós em 2009.
A melodia é do clássico nordestino A Triste Partida. A letra e a execução vocal é de Gilberto Cardoso dos Santos. A tecladista é Débora Fernanda, minha filha.
e Dezembro ligeiro
Já tamo em Janeiro
e é hora de ir
Meu Deus, meu Deus
Titi e Joelle já partem chorosos
e amigos saudosos
vêm se despedir
Ai, ai, ai, ai
Joelle e Titi
nos deixam saudade
de sua amizade
que é tão singular
Meu Deus, meu Deus
Chegou o momento
da triste partida
retornam à vida
de seu doce lar
Ai, ai, ai, ai
Joelle saiu
da França tremendo
do frio correndo
com seu Françuá
Meu Deus, meu Deus
e disse a Titi
a coisa tá feia
por terras alheia
nós vamos vagá
Ai, ai, ai, ai
Fugindo da seca
parte o nordestino
buscando o destino
que em sonhos viu
Meu Deus, meu Deus
mas estes franceses
fugiram da neve
buscando o leve
calor do Brasil.
Ai, ai, ai, ai
Em um avião
entrou a famia
Chegou o triste dia
Já vão viajar
Meu Deus, meu Deus
A neve terrívi
Que o calor devora
lhe bota pra fora
Da terra natá
Ai, ai, ai, ai
O avião corre
acima da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aqueles franceses
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai
A França e o Brasil
se aproximaram
quando aqui chegaram
esses dois franceses
Meu Deus, meu Deus
e eles sentiram
que o amor que tinha
por nossa terrinha
aumentou mil vezes.
Ai, ai, ai, ai
Com as iguarias
estão encantados
pratos refinados
de nosso sertão
Meu Deus, meu Deus
cuzcuz, rapadura,
buchada de bode
só come quem pode
com arroz e feijão.
Ai, ai, ai, ai
da neve e do frio
agora distantes
no sol causticante
suam com prazer
Meu Deus, meu Deus
nas ruas escuras
que há em santa cruz
da cidade-luz
nem querem saber
Ai, ai, ai, ai
Irão sentir falta
dos nossos atrasos
dos nossos descasos
com horas marcadas
Meu Deus, meu Deus
e do bom jeitinho
que é bem brasileiro
lá no estrangeiro
irão dar risadas.
Ai, ai, ai, ai
ouviram de perto
na voz de Roberto
e pediram bis
Meu Deus, meu Deus
quando ele cantava
o casal chorava
e se reportava
à bela Paris.
Ai, ai, ai, ai
Joelle queria
comer graviola
e ao som da viola
dançar um baião
Meu Deus, meu Deus
e de François
a gente destaca:
com visgo de jaca
grudou sua mão
Ai, ai, ai, ai
Do rei da magia
o mister Alessandro
irão recordando
com grande emoção
Meu Deus, meu Deus
bastante espantados
com as suas obras
sumiço de cobras
e levitação.
Ai, ai, ai, ai
Com muita saudade
de seu presidente
retornam contente
para seu país
Meu Deus, meu Deus
levando o exemplo
de democracia
e grande energia
de um povo feliz.
Ai, ai, ai, ai
Lembrarão de Hugo
com muito carinho
também de Marquinho
que é muito gentil
Meu Deus, meu Deus
Também de Cristina
Leninha e Marcelo
e do homem belo
que se chama Gil
Ai, ai, ai, ai
Aqui aprenderam
o bom português
o nordestinês
que é tão eloquente
MEU DEUS, MEU DEUS
e eu traduzindo
com muita destreza
na língua francesa
tornei-me fluente
Le chá amongi
le petit scargot
in dans le chatô
amongi le gatô
Meu Deus, Meu Deus
Le flérs, le eau
Le nee, le cocô
le téte e batô
bon ju, mirabeau
ai, ai, ai, ai
Os santacruzenses
com muito carinho
fazendo biquinho
já falam francês
Meu Deus, Meu Deus
e para o casal
nessa linda homenage
dizem bon voyage
retorne outra vez.
ai, ai, ai, ai
Que voltem felizes
pra sua cidade
e nossa amizade
não venha a findar
Meu Deus, meu Deus
e se o destino
não for tão mesquinho
pro mesmo cantinho
irão retornar.
(bis)
domingo, 27 de setembro de 2009
SOBRE MICHAEL JACKSON

Para muitas gerações
Michael Jackson brilhou,
Com canções maravilhosas
Que a todo mundo encantou
E no dia que partiu
O mundo todo chorou.
Sua carreira baixou
Porque ele cometeu
Alguns deslizes na vida
E o mundo todo sofreu
Mas com a sua magia
Aos poucos se reergueu
Eu sei que Michael morreu
Como um facho de luz
Mas quando chegou ao céu
Usando um lindo capuz
Perguntou logo a São Pedro:
Cadê Menino Jesus?
São Pedro pegou a cruz
E começou a falar
Antes de entrar no céu
Procure se ajoelhar
Pois pra falar com Jesus
Você precisa rezar
E Michael sem reclamar
Fez algumas orações
Depois perguntou ao Santo
Se ali tinha Mansões,
Uma sala com Cinema
E Parque de Diversões
Michael queria Galpões,
Para poder abrigar
Animais raros, exóticos
Do seu Zoo particular,
Jardins e Quadra de Tênis
Pois gostava de jogar
Ele queria encontrar
Uma Estação de Trem
Muitas Passagens Secretas
E um grande Lago também,
Tudo na maior luxúria
Pois isso Neverland tem
Sempre foi gente do bem
Porém a sua alegria
Era viver só de luxo
Cercado de mordomia
Por isso fez Neverland
“A Ilha da Fantasia”
As coisas que ele pedia
Pareciam esquisitas
E São Pedro respondeu:
Aqui tem coisas bonitas,
Só não existem crianças
Para lhe fazer visitas
Com essas palavras ditas
Michael logo entristeceu
E esperando Jesus
Que lá não apareceu,
Perguntou para São Pedro:
Cadê o Menino, meu?
São Pedro logo entendeu
Que Michael não entendia
Que o Menino Jesus
Ali já não existia
Pois o pequeno menino,
É um homem hoje em dia
Michael naquela agonia
Não parava de rezar
E São Pedro admirado
Escutou ele falar:
Se aqui não tem menino,
Então me deixe voltar!
Aqui é o seu lugar,
São Pedro foi lhe dizendo,
E trate de ficar calmo,
Reze mais, vá se benzendo
Porque Jesus chega já
Mas não quer vê–lo tremendo
Do jeito que estou vendo
Por ser astro popular,
Você não quer ouvir reza
Nem veio se confessar
Quer cantar uma canção
Pra dançar e rebolar
Mas quero lhe avisar
Que agora, daqui pra frente,
Você vai ter que levar
Uma vida diferente
Pois seu reinado acabou
É bom que fique ciente
Se você antigamente
Dançava se requebrando,
Fazia muito sucesso
Dançando bem e cantando
Aqui só fará sucesso
Ficando calmo e rezando
De maneira disfarçada
Era um homem moreno
Da pele bem bronzeada
E Michael não percebeu
Por isso não falou nada
Como num conto de fada
Jesus se aproximou
Olhou para Michael Jackson,
E a Pedro perguntou:
Mas não foi um homem negro
Que há pouco tempo chegou?
Nisso Michael se sentou
E começou a falar,
Se o Senhor é Jesus
Eu quero lhe explicar
Eu sou um artista negro
E também sou “Pop Star”
Jesus sem pestanejar
Disse eu vou lhe ser franco
Quando boto cor no homem
O resto da tinta eu tranco,
Se você é homem negro
Como é que morreu branco?
Às vezes até destranco
Mas se houver precisão
E com você não me lembro
De dar essa permissão
Mas se você ficou branco,
Dê-me uma explicação!
Michael Jackson, então
Disse: fiquei a perigo,
Por favor, Jesus entenda,
O que ocorreu comigo
Minha pele foi mesclada
Por causa do vitiligo.
Eu não vou lhe dar castigo
E poço dar-te o perdão
Porque já sei o motivo
Dessa Luva em sua mão
Só quero que você prove
Que tem um bom coração
Minha preocupação,
Deixa uma esperança
Quero que você me diga
“Homem do canto e da dança”
Por que é que você tem
Tanta atração por criança?
Essa é uma cobrança
Que o mundo todo me faz
E eu já sofro com isso
Desde que era rapaz
Mas só durmo com criança
Para me sentir em paz
Eu não sou um “Barrabás”
Como muita gente diz
E com todas as canções
Que na minha vida fiz
Lutei e fiz o que pude
Pra ver o mundo feliz
Por tudo que você diz
Sei que fala a verdade
Porque que eu sendo Jesus
Conheço a sua bondade
Pois eu apenas queria
Ver sua sinceridade
Eu sei a capacidade
E o talento que tens
Por isso agora te dou
Perdão, e meus parabéns
Pois antes de vir a mim
Repartistes os teus bens
Agora aqui obténs
A vida em plenitude
Sem a preocupação
De tratar tua saúde
Porque eu sei que em vida
Foste bom pra juventude
Com essa tua virtude
Sei que és fenomenal
E enorme influência
Para a arte musical
Por isso o mundo te deu
Atenção especial
Com esse teu bom astral
Michael Jackson te digo
Sê bem vindo a esta Casa
E podes contar comigo
Venha me dar um abraço
Meu velho e querido amigo
Lá na terra teu jazigo
Será muito visitado
Em função da tua fama
Serás sempre comentado
Teu Espírito imortal,
Aqui está preservado.
AUTOR: Ismael Gaião
Herói ou vilão?
- Peço a força suprema
Que me dê inspiração,
Pra narrar uma história
De um rei da multidão,
Que partiu precocemente
Levando bastante gente
A sentir forte emoção.
– A morte de Michael Jackson
Foi uma triste surpresa,
O mundo todo lamenta
E ainda não há certeza
Da causa de sua morte
Na América do Norte
Há uma grande tristeza.
– Nasceu ele em Indiana
Em 29 de agosto
Cinquenta e oito o ano
Era um garoto disposto
Que gostava de dançar,
Pouco podia brincar,
O pai não fazia seu gosto.
– Começou a cantar cedo
Com 8 anos de idade,
Fazendo muito sucesso
Ali em sua cidade
Era um adulto criança,
Mas que tinha a esperança
De curtir a sua idade.
– Isso nunca ocorreu,
Pois o seu pai não deixava
E o sucesso cada vez
Menos temos lhe restava ,
Se tornou adolescente
Do seu lado muita gente
Cada vez mais trabalhava.
– Do pai nunca recebia
Carinho e compreensão,
Mas pressão para cantar
E fazer a divisão
Cada vez muito maior,
Que dólar era melhor
Do que qualquer diversão.
– A intenção de seu pai
O pop star percebia
Que não entendia o filho,
Mas só dele exigia
Disposição pra cantar
E muito mais faturar,
Dinheiro era o que queria.
– Cresceu assim o menino
Tendo do pai aversão,
Por ser bruto e insensível,
Um homem sem coração.
Muitas vezes ele chorou,
Uma certa vez confessou
Devido à solidão.
– Em sua carreira solo
O sucesso alcançou,
Nas paradas de sucesso
“Off the wall” estourou,
Percorrendo todo o mundo
Tocando a cada segundo,
A fama logo alcançou.
– No ano de oitenta e oito
“Thriller”- disco mais vendido,
Até então não se tinha
Quem tivesse conseguido
Alcançar essa façanha,
Penetrou na Alemanha
Chegando ao Reino Unido.
– Aproveitou-se da fama
Para poder ajudar
Ao povo necessitado,
Procurou ele amparar,
Onde houvesse pobreza
E tratou a natureza
Como se deve tratar.
– Quem não se lembra daquele
Movimento que pedia,
Ajuda para a África
Onde assim ele dizia:
Que “nós somos o mundo”
Oh sentimento profundo
O Rei do Pop sentia!
– Quando esteve no Brasil
Procurou colaborar,
No morro de Santa Marta
Deu seu apoio por lá,
Ficando muito querido,
Quando veio o ocorrido,
Ninguém quis acreditar.
– Ao visitar à Bahia
E no Pelourinho cantar
Junto com o Olodum,
E um clipe ali filmar,
Torna o grupo conhecido,
Desde aquele acontecido
Fez a coisa melhorar.
– Ainda em oitenta e oito
Durante um show simulado
De um comercial da Pepsi,
Seu cabelo é queimado,
Causando uma ferida,
Que mudou a sua vida
E tem o visual mudado.
– Depois a escura pele
Tem a sua cor mudada,
Repercute na imprensa
E é diagnosticada
Como tendo vitiligo,
Diz um médico amigo:
“Pode ser esbranquiçada”.
E não querendo mostrar
As manchas pelo seu corpo
Manda o médico clarear,
Marcas daquela doença,
Pois era a sua crença,
Seu porte belo mostrar.
– Durante sua trajetória,
O astro foi acusado
De um caso com um garoto
E dele ter abusado,
Falou-se de um acordo feito
Sendo assim para o direito
O processo é arquivado.
– Num cenário conturbado
Assim mesmo é o primeiro
Ao lançar o álbum “Bad”
Alcança o mundo inteiro,
Cada vez mais conhecido,
Mas é muito perseguido
Pelo público fofoqueiro.
– Devido ao grande sucesso
Foi muito assediado
Por qualquer deslize seu
Era sempre criticado,
A imprensa atacava
O Rei se distanciava
Ficando muito estressado.
– Por isso cada vez mais
Era triste e tinha tédio,
Mudou-se para o Barein
Lá no Oriente Médio,
Por lá tentou descansar
Para depois poder voltar
Evitando o assédio.
– Durante esse período
Viaja a várias cidades,
Procurando ajudar,
Havendo possibilidades
Nunca media distância,
Ele não tinha ganância
E fez muitas caridades.
– O dia de sua morte
Vai ficar sempre lembrado,
Vinte e cinco de julho
Ficará memorizado,
Do ano dois mil e nove
Todo o mundo se comove,
Mas deixa o seu legado!
– Era uma tarde bela,
Mas logo ficou cinzenta,
Quando o coração parou
Ele só tinha cinquenta
E alguns meses de idade,
Partiu pra posteridade
E a Deus se apresenta.
– Os seus fãs todos lamentam
Mas há uma suposição
Que o herói não morreu,
Pois houve uma aparição
Dele vivo em outra terra
E foi lá da Inglaterra
Que veio a informação.
– Mas será mesmo verdade
Que o ídolo não morreu?
Ele queria era medir
Todo o sucesso seu
E se o povo lhe amava
Isso ele planejava
A volta do apogeu?
– Pra muitos foi um herói
E um artista completo,
Que vai fazer muita falta
A pai, a filho e a neto.
Digo com muita franqueza
Michael com toda certeza
Merece o nosso afeto.
– Para outros desagradava
Por boatos que corria
De abusar de crianças
Que chamam pedofilia,
Mas por isso foi julgado
Sendo logo inocentado,
Pois prova não existia.
– Segundo Tony Bellotto,
Num artigo que escreveu
“ Michael não era do mundo
Nem o mundo lhe entendeu
Por isso houve conflito,
Agora Michael é um mito
Ficou o sucesso seu”.
– Se morreu ou está vivo?
Eu não quero opinar
Se foi herói ou vilão?
O leitor pode falar
E dar sua opinião,
Não digo sim e nem não
Aqui quero me isentar.
– Por isso, caro leitor
Você pode analisar
Toda essa trajetória
E poder melhor julgar,
Se foi herói ou vilão,
É a sua decisão
Sobre esse Pop Star.
autor: Professor João Maria de Medeiros
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
POEMAS DE ROGÉRIO ALMEIDA

Rogério Almeida é um nordestino simpático e de inteligência rara que reside fora do Brasil. Ama a cultura nordestina e tudo que tem a ver com nossa gente.
Abaixo, dois poemas de sua autoria:
Prece do amigo amante
(A Esther Schindler)
Divindade deste campo
De lajedo e espinho em riste
Anuncia a forte chuva
Que sobre este chão de agrura
Há de um dia despejar
O alento em densos favos
Pra este ser que agora é triste
E pra tudo o mais que purga
A tremenda desventura
Do aceno que brandiste
Para nunca mais voltar
Percutindo a rama parca
Transformando poça em mar
Vem sulcando a terra escura
Feito o sangue da tortura
Que é não poder te enxergar
Desce e corre seus caminhos
Revolvendo qual moinho
Pedra, galho e meu penar
E com cega violência
Não terá também clemência
Da lembrança que é tão má
De viver em tua ausência
Que na infinda estiagem
A paisagem seca e morta
Do vazio desta alcova
Não fartou-se de habitar
Divindade mais serena
Cuja mão tão diligente
O arquejo de meu peito
Veio um dia apaziguar
Sopra a bênção de teus lábios
Que afugente maus presságios
Desde o topo deste altar
Pra que o fogo arrefeça
Deste ferro em carne viva
Deste sol a causticar
E o adágio da jornada
Em allegro se converta
Ao sentir-lhe o leve toque
Qual prenúncio do regresso
Antes mesmo que amanheça
E dos sonhos o recesso
Venha o termo decretar
Ave, deusa deste monte
Deita ao vale teu olhar
Vê quão torpe é esta vida
E convulso o meu amar
Vê que atroz é a desdita
Da ternura desmedida
E de contra ti pecar
Toma a prece que te elevo
Tem piedade deste cego
Que não cansa de chorar
Pois além de teu afago
Nada há que possa o fardo
Destes ombros mitigar
Continua, te imploro
Neste monte que é teu lar
Sê de mim o cais noturno
Onde possa em sono augusto
À tua face repousar
Musa sacra sob o manto
De pinheiro, neve e vinha
Despe o véu de teu reinado
Faz desabrochar teu canto
Nesta língua que é tão minha
Rasga o pano que te cobre
Mostra os seios teus em chama
Geme o doce devaneio
Do que de desejo sofre
Do que humanamente ama
E concede a este pobre
O milagre de um dia
Ser além daquele norte
Em revelação tardia
Por teu beijo arrebatado
E sem dúvida ou pecado
Possuir-te em agonia.
Que faço, mulher, das noites quietas
imersas em vinho
velando o silêncio
de quem já não sabe
se há algo além
de tanto chorar
de tanto carinho?
Que faço também
dos dias em trevas
mais graves que os ventos
de toda poesia
que açoitam valentes
as velas infladas
de tanta agonia?
Que faço, ainda, de todo este mofo
que faço
suplico
do fátuo fogo
que exausto declina
o ardente convite
à vida que brinda?
Que faço, mulher, que faço afinal
de todo este frio
que nunca esvaece
que é lâmina e fende
a carne tão frouxa
de quem já não move
a face indolente
em seu desvario?
Que faço, me diga, que faço de todos
que incautos caminham
ao léu e sem fim
às costas o berço
à frente o cerzir
do féretro estreito
em que se há de tornar
ao eterno porvir?
Que faço, mulher, e que faço de mim
aquele que espera
da alma despido
sem dor e sem medo
que não o de ser
sem ti condenado
ao eterno degredo?
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sábado, 29 de agosto de 2009
ENTREVISTADO: FRANCISCO MACIEL (POETA JAPIENSE)

ENTREVISTA COM MACIEL
GILBERTO: Maciel, fale-nos sobre sua pessoa, formação, áreas de atuação e região em que vive.
MACIEL: Sou natural de japi, onde resido e trabalho em duas escolas estaduais, lecionando a disciplina de português. Sou licenciado em Letras pela UFRN.
GILBERTO: Como e quando foi despertado em você o interesse pela leitura e pelas produções literárias?
MACIEL: Meus primeiros rabiscos literários aconteceram na minha infância. Sempre fui influenciado pela minha família . O saudoso José Tavares , colega nosso , dizia que quando ouvia falar na família Confessor , vinham à mente duas coisas : Uma que se tratava de uma família evangélica , outra que era uma família de poetas . Não sou, digamos assim, o cerne da família, só que influenciado e tirando vantagem de tudo isso. Em seguida o curso de letras me ofereceu verdadeiros “banquetes literários” e isto me tem feito um grande bem.
GILBERTO: Fale-nos, com riqueza de detalhes, sobre os poetas e escritores de sua família.
MACIEL: Você , Marcos Cavalcante e Hugo Tavares são algumas testemunhas da importância de minha tia Francisquinha Confessor para a literatura de cordel . Uma anciã já com seus 96 anos que é referência para a cultura do nosso estado, com sua vasta produção literária e várias premiações de reconhecimento, além dos registros escritos por seus irmãos já falecidos.
Temos Goimar, que você conhece tão bem: jornalista, roteirista e escritora. Desde sua infância que reside em São Paulo , de onde também nos encanta com suas belas poesias .
Acrescento ainda meu pai que é poeta repentista.
GILBERTO: Que visão tem você da ASPE? Haveria algo a ser melhorado nessa entidade ou acha que tem cumprido bem seu papel?
MACIEL: É inegável que a ASPE tem uma boa representação do potencial cultural do município de Santa Cruz e como se trata de uma cidade pólo, passa a ser referência também para a região do trairi. Não se trata de um grupo fechado, pelo contrário, há convivência pacífica entre pessoas de formação diversificada, pontos de vista e estilos diferentes. Basta dar uma olhada nas páginas dos livros publicados pela ASPE e nos eventos realizados para se chegar a essa conclusão.
Não tenho um conhecimento profundo da instituição, portanto nem tenho como fazer sugestões, mas entendo que não é fácil resgatar cultura, vender livro e formar leitores e escritores num país em que educação não é prioridade e onde aqueles que detêm o poder da comunicação não têm um compromisso social neste sentido. Qualquer instituição como a ASPE só em existir já é um desafio e o fato de estar de pé significa lutar contra quase tudo e quase todos. Percebo que a ASPE não é uma instituição de fachada e que presta serviços relevantes à comunidade dentro da proposta em que foi criada.
GILBERTO: Que significou para você o ter participado da Antologia da ASPE, “CANTOS E CONTOS DO TRAIRI”? Pretende participar de outras antologias?
MACIEL: Foi uma oportunidade que tive de juntar-me a um grupo de colegas e divulgar um trabalho que nos enobrece ao contribuir para mostrar quem somos, o que pensamos e que contribuição estamos dando para nossa literatura. Aproveito a oportunidade para agradecer a você Gilberto, que me fez o convite , intermediou minha participação e a ASPE por esta abertura , para que outros municípios possam estar juntos , somando em prol da cultura de nossa região . Sempre que convidado estarei disponível para participar.
GILBERTO: Pretende publicar algum livro? Fale-nos de suas pretensões literárias.
MACIEL: Pretendo sim , mas sei que isso vai demandar tempo , pois escrevo pouco e sou muito exigente com aquilo que escrevo , demoro demais refazendo . Sou do tipo perfeccionista e me cobro bastante neste sentido . Quando estou escrevendo algo crio certa ansiedade em divulgar, mas depois os ânimos se arrefecem.
GILBERTO: Identifica-se mais com a poesia ou com a crônica? Por quê?
MACIEL? Escrevo bem pouco e ultimamente até tenho escrito mais crônicas. È que tudo surge assim , de alguma coisa que me desperta o desejo de escrever algo sobre aquilo . Digamos que seja o “fio da meada”. Começo então a articular com outras informações, vou juntando e eis que tudo fica pronto . Seja poesia ou crônica não surgem assim espontaneamente. Lembrei agora uma poesia sua, Gilberto, quando você diz “faço versos como quem aborta”. Seria mais ou menos assim, mas seja poesia ou crônica eu ajo sempre com bom gosto e faço questão de mexer quantas vezes forem necessárias.
GILBERTO: Com que estilo de poesia você se identifica mais? Que poetas aprecia?
MACIEL? Certa vez escrevi que sou introspectivo, vassalo da rima, da cadência, da musicalidade, sendo ainda vagante e domável, ou seja , sou um pouco de tudo . Poesia é a tradução de sentimentos, pensamentos, emoções e quando se consegue fazer isso através das palavras, o fundamental é o resultado dessa mistura com o belo que se consegue. O estilo é apenas parte do contexto. A ênfase, na verdade, é para a liberdade de criação.
Não aprecio poetas específicos, embora reconheça que toda a produção literária de Drummond e Manuel Bandeira, em relação à de outros escritores , atraem um pouco mais.
GILBERTO: Acha você que a cultura como um todo tem recebido a devida atenção na região em que vive? O que falta e o que há de positivo?
MACIEL:. Acho que somos apáticos com relação a essa questão. Apresentamos reflexos, não ,digamos , especificamente consequente de uma falta de atenção in-loco, mas daquilo que se construiu ao longo dos anos numa esfera maior, num contexto social mais amplo . Sempre que discutimos este assunto chegamos à conclusão de que falta receptividade, aceitação, correspondência , como se estivéssemos meio que andando na contramão daquilo que faz parte de nossas origens , nossa vida, do nosso bom gosto. É fácil diagnosticar parte do porquê . Estamos envolvidos demais com a modernidade, daí vem a inquietação, a busca incessante pelo novo, mas nossos costumes, nossas tradições nem sempre cabem nem estão projetados nessa nossa proposta de vida . Em minha cidade, por exemplo, quase todas as casas antigas já perderam sua fachada. Estamos abrindo mão de nossa identidade, de nosso vínculo com o passado. Este é apenas um dado.
Vou citar alguns “termômetros sociais” que sinalizam com exatidão o quanto somos sem noção e que repercute nessa questão. Nossas bibliotecas públicas não são frequentadas como deveriam, nem são referenciais como ambiente provocador, estimulante à leitura, a pesquisa e os gestores nem a comunidade priorizam isso. A formação que nós educadores, responsáveis em lidar com essas questões em sala de aula, recebemos nos cursos de licenciatura, há muito que precisa ser repensada. Vendo, então, a programação dos meios de comunicação, se tem uma idéia do tempo que nós dedicamos a amenidades.
De positivo há iniciativas locais, projetos, entretanto na maioria das vezes lhes faltam consistência por serem conduzidos de maneira isolada, focalizados numa gestão política específica e que nem sempre numa visão atemporal, mas que nem por isso deixam de serem bem-vindos.
Fico satisfeito, por exemplo, quando vejo a busca em se resgatar os festejos juninos. Particularmente me sinto inserido nesta tradição, sendo transportado à minha infância e isto me é salutar. Acho que essa é a essência desse tipo de resgate, o aspecto religioso não é relevante, entende? Outro exemplo, o prefeito de minha cidade tem seguido um cronograma, realizando eventos que resgatam e valorizam a poesia nordestina. Então, entendo que estão querendo acertar e atitudes como estas devem ter nosso apoio.
GILBERTO: Parece-me que a cultura popular em Japi sempre precisou e contou com o apoio de seus familiares, especialmente de seu pai. Quão significativo tem sido esse suporte ao longo dos anos?
MACIEL: Meu pai é uma referência na cidade quando o assunto é poesia popular. É poeta repentista, tem verdadeira paixão por cantoria , é bastante receptivo . Sempre promoveu encontro de violeiros aqui na cidade. Tem amizade, admiração e respeito recíprocos aos poetas do improviso. É conhecido pela alcunha de poeta Tota Branco que o deixa gentilmente gratificado. Os cantadores que visitam a cidade sabem que contam com seu apoio.
GILBERTO: Que livros e/ou poesias deixaram marcas indeléveis em seu espírito? Haveria alguma poesia em particular que você considera a melhor de todas?
MACIEL: Eu citaria apenas a bíblia. Ainda que dissociada de aspectos espirituais, há nela algo de majestoso. E é por isso que permanece aí perpassando gerações, seja como objeto de comparação, de confirmação, de refutação, de questionamento, de união, de divisão, de libertação ou de alienação. Acho isso magnífico.
Acho bastante completa a poesia “José” de Drummond. Vez por outra me pergunto: E agora José? Pois nunca me falta “uma pedra no meio do caminho”. Acho profundo demais e embora pareça de um simplismo, tem significação sempre atual e permanente. Drummond consegue se aproximar demais da gente.
GILBERTO: Brinde-nos com um texto (em prosa ou verso) de sua autoria.
ESTILISTA DITA MODA
Aperto em mãos calejadas
Sorriso reprimido a cada pranto
Palavras que se calam, vozes silenciadas
Liberdade funerária num recanto.
Há conforto subumano que se gera
Nos destroços da paz já destruída
É uma força que resiste , que impera
Na comida aputrefada deglutida.
Uma suposto estilista dita moda
Uma mancha de contágio incomoda
A cidade paralisa sua pressa.
Guerreiros sofrem , nessa hora o povo fala
E a revolta dessa turba que se cala
Alimenta o ódio que não cessa .
domingo, 2 de agosto de 2009
O POETA ZÉ PEQUENO
O bem-humorado poeta José Antônio da Silva,nascido em 1903, filho natural de Santa Cruz, após viver por mais de 9 décadas partiu em 02 de fevereiro de 1994 deixando muita saudade, 15 filhos e alguns cordéis de sua lavra carinhosamente guardados por sua numerosa prole. "Zé Pequeno" no apelido porém grande na inteligência e aptidão para memorizar, recitava seu cordel O PERIGO DO BUJÃO e arrancava aplausos e risos, mesmo perto do fim de seus dias.
Ouça-o, abaixo, já velhinho e recitando-o para familiares reunidos em seu aniversário:
Eis o texto:
Oh meu Deus de piedade
Ía se dando um grande horror
Na fazenda Bom Jesus
Quando o bujão incendiou
Foi um milagre de Deus
Porque o povo escapou
Manuezim preste atenção
Trabalhe com mais cuidado
Pois um serviço mal feito
Nunca dá bom resultado
Repare o que lhe fartou
Pra você morrer incendiado
Hélio quando viu o fogo
Fez carreira dentro do mato
Retalhou-se nos arames
Quase caía o fato
Enquanto existir fogo
Eu viro bicho do mato
O senhor José Reinaldo
Correu lá pro barracão
Subiu-se na garrancheira
Fez vez de um camaleão
Enquanto existir fogo
Eu nunca mais piso no chão
Burrega também correu
Pra casa de Cinivete
Chegou lá caiu cansada
E pediu uma compresse
José subiu para o garrancho
E não sei quando ele desce
Pedro mais o cachorro
Correram lá pros macaco
Na curva de uma barreira
Deram fé dum buraco
Aqui nós escapa a vida
Oh pai bom só é o mato
Heliso mora mais longe
Mas escutou a zuada
As mulher tudo correndo
Gritando pelas malhada
Vala-me Nossa Senhora
Pra nós num morrer queimada
Pegadinha nas parede
Eu posso morrer incendiada
Porém vou pra minha rede
Conduzam um copo com água
Pra eu num morrer com sede
Uma muleca de João
Alevantou-se pelada
Subiu-se na laranjeira
Ficou lá amuquecada
Uma moça passou e disse:
Essa muleca é adoidada
As moças se levantaram
Correram até de cueca
Vamos lá pro pés de manga
Porque a gente se trepa
E quando cessar o fogo
A gente volta mais quieta
Antonhi Gino e Mané Pedro
Zé Viera e João Reinado
Ficaram no meio do pátio
Todos quatro horrorizado
E tive lá no seu Técio
Porque ele dormiu no roçado
Lair também fez carreira
Com aquele ar espantado
Escanchou-se num jumento
Porque ele tava deitado
Embaraçou-se no vestido
Foi cair lá no roçado
Josefa só escapou
Porque saltou pela janela
Caiu debaixo do terreiro
Relou até as canela
Laí eu lá sei que morreu
E nunca mais vejo ela
Desculpe caros leitor
Se num acharam de agrado
O verso é um pouco curto
Porém foi bem arrimado
Pra se lutar com o bujão
Precisa muito cuidado.
(José Antônio da Silva)
domingo, 19 de julho de 2009
ENTREVISTA COM MARCOS CAVALCANTI

GILBERTO: Olá, Marcos! Fale-nos sobre sua pessoa e como a arte entrou na sua vida.
MARCOS: Entrar na vida é que é uma misteriosa arte. Veja, meu pai que não tem afinidade nenhuma com manifestações artísticas, estava sentado numa calçada no bairro do Paraíso (onde nasci) com um violão no peito, fingindo tocar uma música qualquer, quando minha mãe passou e disse-lhe algum gracejo. Desse fingimento de arte nasceu o amor entre eles e estou eu aqui em sua entrevista. Talvez meus genes mais remotos tenham ouvido aqueles acordes fingidos e eu sigo até hoje no fingimento de ser poeta (lembremo-nos de Fernando Pessoa - o poeta é um fingidor...). Não vou falar de mim, pois ainda ando aos 36 anos meditando nas palavras do oráculo: “conhece-te a ti mesmo” e não haveria páginas no seu blog para conter as conclusões hegelianamente relativas que cheguei até o momento, ao meu respeito. É melhor não enfadar ao seu leitor com isto.
GILBERTO: Conte-nos como surgiu a idéia da ASPE e a ASPE propriamente dita.
MARCOS: Eu era estudante de Letras no Campos Avançados de Santa Cruz (UFRN) e a cidade não contava com um movimento organizado em prol da literatura no município. Só para que o seu leitor tenha uma ideia, o livro Rimário dos Poetas Brasileiros (1938) desde o seu lançamento era a única antologia existente e publicada em Santa Cruz, pela tipografia Trairi, e nele, apenas um ou outro autor potiguar figura, e um ou outro autor residente em Santa. Eu queria mudar essa realidade e vi na organização de uma antologia poética, essa possibilidade. Com muito esforço amealhei os primeiros poemas, fui conhecendo outros escritores por meio dos amigos que indicavam e finalmente nasceu com a nossa primeira antologia: Templos Tempos Diversos, que reuniu em sua edição (1995) 23 poetas, o desejado movimento que até hoje se sustenta. Desse lançamento e com o grupo com o qual eu mantinha mais contato (Hélio Crisanto, Nailson, Hugo, Rita Luna, Matias, Edgar, Borginho, entre outros), amadurecemos a idéia de criarmos uma associação, e a ela denominei com a aprovação de todos, de ASPE (Associação Santacruzense de Poetas e Escritores) fundada em 17 de setembro de 2000, numa sala da escola IESC. Ressalto que antes de sua fundação, organizei ainda a antologia Trairi em Versos (1997), como parte do projeto (Poesia Viva) para editar livros com os nossos textos poéticos. Hoje a ASPE encampou essa proposta e já estamos na 4ª antologia, já que adotamos as duas edições anteriores como sendo parte desse projeto da arte, ainda que anterior a ela, e da qual você, para nossa honra, também faz parte como membro.
GILBERTO: O que a ASPE tem feito de relevante até hoje?
MARCOS: Fora a publicação das antologias que eu já mencionei, destaco a sua participação no cenário local, incentivando novos autores, acolhendo a todos de maneira solidária e democrática, levando poesia para as escolas, para as rádios locais, fazendo recitais em eventos diversos, mas, sobretudo, criando a consciência de que Santa Cruz tem bons escritores e que vale a pena prestigiá-los. Creio que conseguimos o respeito da comunidade em geral, e tanto é que já fomos homenageados até num desfile de 7 de Setembro pela escola José Bezerra Cavalcanti. Não esquecendo também que os seus membros têm obtido êxito em premiações de concursos dentro e fora do estado, seja no âmbito da música ou da poesia.
GILBERTO: Que expectativas você tem em relação à ASPE? O que ainda falta?
MARCOS: Falta uma maior adesão, não só de seus membros, como de muitas outras pessoas que poderiam estar nela, contribuindo e trocando idéias conosco, discutindo literatura, atualizando-se. Mas o que me deixa muito feliz é que da semente da ASPE muitos outros livros individuais já surgiram em Santa Cruz, e eu sei, que sem esse movimento, nada disso teria sido possível. A nossa literatura, de certa forma, se confunde com a própria existência da ASPE e é claro que o contexto que vivenciamos no passado com a presença da universidade, especialmente com o curso de Letras, que tínhamos, foi também um dínamo propulsor deste desenvolvimento. Espero que a ASPE siga forte, com os mesmos ideais que foi criada e que possa dar muitas alegrias a Santa Cruz no âmbito literário e cultural.
GILBERTO: Qual a importância da leitura em sua vida e o que a poesia representa para você?
MARCOS: Ler é descobrir e descobrir-se. Não saberia viver sem a leitura e certamente ela foi e é a maior influência em minha vida, ainda mais se considerarmos o termo em sua acepção semiótica. A poesia, como diria, parodiando um mestre do realismo, sendo ou não realista: é o meu eu mais profundo na reflexão de mim mesmo, dos outros e do mundo. A Poesia é o meu pão de cada dia, pão que adoro compartilhar com os outros, mas advirto, que as vezes há algum bolor nele. Coma quem tiver estômago forte.
GILBERTO: Fale-nos dos trabalhos que tem desenvolvido e prêmios que tem conquistado.
MARCOS: Gilberto, os planos nem sempre andam, os projetos nem sempre engrenam como gostaríamos, mas é assim mesmo. Por vezes temos que dar tempo ao tempo. Estou feliz com o recente lançamento do meu segundo livro de poesia, Imarginário, embora não possa estar me dedicando à venda como fiz pessoalmente com o Viagens ao Além-Túmulo, mas isso é oura história e eu vivia outro contexto. Estou me preparando para ir novamente à cidade do Recife, onde participarei pela terceira vez da edição do concurso IV Recitata (Recife em Cantata) do qual já por duas vezes saí com um honroso segundo lugar (2007 e 2008), mas não crio expectativas, vou, sobretudo, para participar, rever amigos e recitar poesia, coisa que gosto demais de fazer. Gostaria muito que o meu terceiro livro “Antropofamélicas Palavras” já tivesse numa fase mais adiantada, mas estou aguardando a promessa de capa do Mestre Dorian Gray Caldas, como disse, tempo ao tempo. Ademais, quero publicar também um livro infantil de poesia, como Imarginário, também em Português e Espanhol. Neste caso, a dificuldade é mesmo conseguir uma editora que banque, com bons ilustradores etc. Mas vou correr atrás deste sonho.
GILBERTO: Que tem a ressaltar sobre a produção cultural no Rio Grande do Norte e especificamente no Trairi?
MARCOS: Gilberto, você me pede muito numa entrevista destas, esse assunto dá pano pras mangas. Sei que temos várias manifestações artísticas importantes no estado, desde a chamada cultura erudita até a manifestação popular ou folclórica, basta ler Deífilo Gurgel para constatar isso, ou ficar atento à programação cultural veiculada pelos meios de comunicação. A poesia, para mim, é a grande vocação do estado. Quando a revista Preá, da FJA, mantinha a sua regularidade, tínhamos uma noção mais abrangente da realidade artísticas das cidades e regiões, e eu acompanhei com alegria cada edição. De nossa região, se não estou enganado, apenas Sítio Novo e Santa Cruz mereceram destaque na revista, ficando de fora outras cidades do Trairi que também tem o seu valor. Espero que os seus editores retornem para a cobertura em todas as cidades, e mais não digo.
GILBERTO: Quais as características de sua poesia e que autores o influenciaram?
MARCOS: Cada poesia tem a sua própria razão de ser. Já fiz poesia erótica, de crítica social, encomiástica, de amor, de ocasião, concreta, filosófica etcoetera. Nailson diz em seu estudo literário ainda inédito, que a minha poesia não cabe nos ismos e ratifico essa opinião. Se os meus leitores identificarem algum traço, ótimo, respeito a opinião de cada um, se não, e se isso não os agradar, dêem às traças a minha poesia, ela as alimentará.
GILBERTO: O que você lamenta em relação à produção cultural em Santa Cruz? E o que comemoraria?
MARCOS: Amigo, eu vou dar uma resposta bem evasiva para não ferir ninguém: eu lamento o que você lamenta e fico nisso. Comemoro, todavia, a garra de muitos artistas que tiram leite de pedra para produzir sua arte. Muitos, apesar de todo esforço, sequer são reconhecidos. Mas já estou ficando calejado nestas coisas, eu mesmo sei o que passo ou que passei para produzir alguma coisa em Santa (festival de viola, por exemplo). Pergunta a Hugo, ele também sabe. Pergunta a Messias, Ricardo do Arte Viva, eles também sabem.
GILBERTO: Deixe-nos um de seus poemas prediletos, de autoria própria ou não.
Nas medalhas do teu uniforme,
Rostos embaçados e disformes
Refletem grande dor.
Em cada rosto – um tormento,
Em cada medalha – um lamento
E em tua face – o horror.
Os teu dedos – vertem balas,
Os teu ouvidos – bombas raras
E em tuas veias – corre a pólvora.
Os teus olhos – vêem barricadas,
Uma lembrança te apavora.
A imagem de teu irmão
Num último aceno de mão
Antes de cair por terra.
Joga fora tuas medalhas,
Honra ao mérito das mortalhas
E abomina toda guerra.
Marcos Cavalcanti
20-AudioTrack 20.wav (6.41 MB)
MAIS UM POEMA DE AUTORIA PRÓPRIA DECLAMADO POR MARCOS:
http://gcarsantos.podomatic.com/player/web/2009-08-29T13_35_26-07_00
PARA OUVIR O PROGRAMA VERSO E COMPANHIA (VEICULADO EM 05.09.09) ABRA O LINK http://gcarsantos.podomatic.com/entry/2009-09-07T07_48_46-07_00


